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Patrimônio natural e degradação ambiental
No campo do patrimônio natural, foram visitadas reservas naturais de
grande valor, como o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, as lagoas de
peixes dos rios Pandeiros e Carinhanha, o Raso da Catarina, os canyons
do Baixo São Francisco, a Área de Proteção Ambiental de Marituba do
Peixe e a Área de Proteção Ambiental de Piaçabuçu, onde está a belíssima
foz do rio.
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Lavadeiras
no rio em São Romão, Minas Gerais
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Foi
registrada a situação ambiental do rio e do seu entorno, cotejando-a,
inclusive, com a realidade descrita pelos viajantes do passado.
Verificou-se o grave problema da des- truição das matas ciliares e de
outras matas protetoras, que, combinada com a redução da correnteza
provocada pela retenção das águas nas represas, é responsável pela
ace-leração do assoreamento. O fenômeno tem ocasionado, ao longo de décadas,
a formação de coroas e ilhas no leito do rio, que são observáveis em
diversos dos seus trechos. A falta de chuva agrava o problema,
diminuindo o volume de água e expondo as áreas assoreadas.
As matas têm importante papel retentivo do terreno arenoso marginal do
rio, dificultando o seu descimento para o leito. A "limpeza"
das margens do rio, seja para plantio, para construção de moradias e
ainda para instalação de hotéis pesqueiros, situações presenciadas
durante a viagem, contribui enormemente para o assoreamento.
O ambientalista Apolo Heringer Lisboa, coordenador do Projeto Manuelzão,
em contato com a equipe da Expedição em Pirapora, falou sobre a importância
da ictiofauna como indicador do estado de conservação do meio ambiente
no rio. Ainda que resguardadas as grandes diferenças existentes entre
os diversos trechos do rio, a situação da vida aquática no São
Francisco é extremamente negativa.
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Paisagem
do São Francisco em Piranhas, Alagoas
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O
lançamento de esgotos domésticos e industriais no rio, os despejos de
garimpos e mineradoras, o uso intensivo de fertilizantes e defensivos
agrícolas, a irrigação, o assoreamento, a pesca predatória e os
efeitos das barragens das usinas hidrelétricas, que provocam desvio do
leito dos rios, redução da vazão, alteração da época das enchentes
e a transformação de rios em lagos, são causas marcantes de um estado
de quase esgotamento do São Francisco, no que diz respeito à vida aquática.
A ictiofauna está especialmente escassa nos trechos mineiro e baiano do
rio. No médio São Francisco, especialmente acima de Barra, antes
portanto de se atingir o lago de Sobradinho, a redução da quantidade
de peixes atingiu níveis verdadeiramente assustadores. Uma denúncia
trazida pelo capitão da barca Luminar, Lúcio Barreto, é de que os
grandes fazendeiros do trecho mineiro estariam criminosamente fechando
as lagoas na-turais de peixes presentes nas suas terras, impedindo a sua
comunicação com o rio. Os peixes nascidos nas lagoas ficariam assim
isolados, acabando por morrer no criatório natural, sem conseguir
atingir o leito do rio.
Outra denúncia, feita por Alfredo Sampaio, secretário do Meio Ambiente
do município baiano de Gentio do Ouro, é que as lagoas da região -
Ipueira, Mangue Fundo e Itaparica - têm sido ameaçadas pelo tráfego
constante de embarcações. Segundo ele, essas embarcações acabam por
paulatinamente alargar os canais de comunicação das lagoas com o rio,
facilitando o vazamento da água e a conseqüente perda do criatório
na-tural de peixes.
O assoreamento, ao facilitar a evaporação da água, também contribui
de maneira significativa para a redução da ictiofauna. E até mesmo a
retirada de troncos do fundo do rio foi apontada como fator de ameaça
à vida aquática. Os troncos retirados pelos pescadores para facilitar
a passagem das redes de pesca constituem abrigos para os peixes ("a
casa do peixe") e barreiras contra o deslizamento das areias.
Um dado alarmante é o de que a quase totalidade das cidades ribeirinhas
dos trechos percorridos pela Expedição despejam os seus esgotos domésticos
diretamente no São Francisco. Seja por via de tubulações subterrâneas,
seja através das "lagoas de esgoto", seja, enfim, deixando
correr para o rio, a céu aberto, os dejetos domésticos, os núcleos
urbanos ribeirinhos fazem do São Francisco o depósito privilegiado do
seu esgoto.
A
utilização indiscriminada das águas do São Francisco e dos seus
afluentes para a irrigação agrícola é outro fator de diminuição do
seu volume. Há mesmo casos de exaustão total das águas, como o
registrado no rio Salitre. Esse rio, que divide os municípios baianos
de Sobradinho e Juazeiro, encontrava-se completamente seco quando
ocorreu a visita, situação provocada pelos diversos projetos de irrigação
instalados nas suas cabeceiras. A utilização descontrolada da irrigação
agrícola contribui também para a poluição do rio, devolvendo para o
seu leito o excesso de água aplicada, que arrasta consigo resíduos de
fertilizantes, agrotóxicos, herbicidas e outros elementos tóxicos.
Muito há por ser feito. A salvação do rio São Francisco, a valorização
do seu patrimônio cultural e a recolocação da sua importância histórica
são tarefas de governos, empresas, instituições públicas e da
sociedade civil organizada. E, principalmente, de cada cidadão
brasileiro. Todos podem contribuir para reverter o estado de degradação
que ensejou o assustador prognóstico traçado pelo nonagenário
benzedor Minervino Pereira da Silva, de Ibiaí, durante entrevista
concedida para a equipe da Expedição: “a cama dos peixes vai se
tornar a cama dos bois”. Evitar esse futuro sombrio é o objetivo
maior da Campanha Rio São Francisco Patrimônio Mundial, do Projeto
Manuelzão, de outros movimentos ambientais e dos comitês de bacia.
Contribuição:
Márcio Santos |