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Expedição Ecológica Rio São Francisco - Projeto Verde Brasil - Visite nosso site e saiba mais sobre o projeto.

Etnoictiologia 

   Existência de tabus alimentares entre as famílias de pescadores da represa de Três Marias (MG)

  Restrições alimentares a determinados peixes são usualmente encontradas entre famílias de pescadores e podem ser consideradas como tabus. As preferências alimentares do peixe, o paladar, o cheiro, a aparência exótica e a qualidade do meio onde o peixe vive foram fatores motivadores preponderantes. Situações específicas como gravidez, resguardo e determinados problemas de saúde também contribuem para definir evitações. Apesar dos tabus serem freqüentes, muitos são difíceis de serem verificados na prática.

  A pirambeba (Serrasalmus brandtii) não é consumida. As explicações êmicas deste comportamento, isto é, informadas pelos entrevistados e entrevistadas, estão baseadas principalmente na presença de muitas espinhas e pouca carne, no seu comportamento agressivo e na crença de que a pirambeba se alimenta de cadáveres humanos.

  Os peixes de couro, como o mandi (Pimelodus maculatus), não são consumidos pelas mulheres, principalmente na época de resguardo, pois acreditam que esses peixes têm "reima", podendo despertar ou acentuar doenças

  Importância medicinal de alguns peixes segundo as famílias de pescadores
da represa de Três Marias (MG)

  A importância de determinados elementos da fauna de peixes na cura alternativa de doenças é uma prática bem estabelecida em comunidades de pescadores.A carne do peixe é considerada mais saudável que outras. Na represa de Três Marias, as famílias dos pescadores utilizam seis espécies de peixes para diversas finalidades terapêuticas: gripe, dor de ouvido, cólica de rins, frieira, dentre outras. Em geral, a cabeça, a banha e o fel são as partes mais utilizadas dos peixes. As utilizações podem ser feitas através de simpatias, uso direto como alimento, preparo de chá e preparo de gordura para aplicação.

  Alguns exemplos de uso medicinal são: a gordura das curimatás (Prochilodus affins, Prochilodus marggravii) para a gripe e as pedras (otólitos) da corvina (Pachyurus squamipinnis) tanto para cólica dos rins (chá) quanto para feridas e machucados (aplicação direta).

  Contribuição de Elisa Furtado, mestranda em Ecologia de Recursos Naturais Renováveis pela Universidade Federal de São Carlos, SP.

  A pesca nas corredeiras de Buritizeiro

  Entre as cidades de Buritizeiro e Pirapora, em Minas Gerais, as águas do São Francisco passam uma série de corredeiras que se estendem por cerca de 600 metros a partir da ponte Marechal Hermes. Além da beleza proporcionada pelas quedas d'água, as corredeiras oferecem boas condições para a pesca. Essa vem sendo realizada desde a época dos índios Cariris e, embora proibida pela legislação federal, permanece até os dias atuais.

  Diferentes estratégias de pesca são aí praticadas, mas uma se destaca pelas suas peculiariedades. Ela é praticada numa pequena área de cerca de 2 hectares, durante as 24 horas do dia, todos os dias do ano, por cerca de 43 pescadores, incluindo uma pescadora. Para que todos os pescadores dessa comunidade possam pescar numa área tão reduzida surgiu um sistema de pesca em turnos. A cada turno, pescam até quatro pescadores simultaneamente mas, mais freqüentemente, um ou dois. O direito de pescar na área é herdado do pai pelo filho ou adquirido "comprando-se a hora". Os intrusos são afastado, às vezes, de maneira violenta embora, a eles, dá-se o direito de pescar em determinados trechos da área.

  Antes de descer para o rio, o pescador "toma conta da hora" para que seu turno não seja tomado por outro. Caso o "dono da hora" não queira pescar, ele pode passar a "hora" para outro; sendo o produto da pesca, nesse caso, dividido entre os dois. O pescador que não tem "hora" ou que não marcou horário, pode pescar abaixo do pesqueiro a qualquer momento.

  A pesca ocorre normalmente desembarcada e o pescador percorre o pesqueiro andando ou nadando de uma laje para outra. Quando realizada em dupla, utiliza-se barco de madeira para explorar a área.

  O equipamento mais freqüentemente empregado é a tarrafa. Utiliza-se também o colfe (cesto cônico de arame armado com a boca voltada para a correnteza), o caçador (anzol com isca viva) e, às vezes, a rede de espera.

  O produto da pesca é repassado, na maioria das vezes, para peixarias ou atravessadores que vendem o peixe de bicicleta pela cidade. Vendas diretas ao consumidor são raras. .

  A pesca nas corredeiras de Buritizeiro foi acompanhada durante 91 dias do ano de 1999. Foram capturados 2.355 kg de peixes, correspondentes a 2.083 indivíduos pertencentes à 22 espécies. Com 998 kg, o curimbatá-pacu foi o peixe mais capturado, seguido do surubim (340 kg), dourado (210 kg) e pirá (196 kg). Essas quatro espécies em conjunto perfizeram 74% de toda a biomassa apanhada.

  Durante o turno de pesca, cada pescador capturou em média 4 kg de peixes, o que é semelhante ao de outras estratégias de pesca na região. O mês de menor captura foi agosto com média de 1,5 kg de peixes/turno/pescador. A maior média foi registrada no mês de novembro com 7,5 kg.

  Uma característica da pesca nas corredeiras é a captura freqüente de peixes abaixo do tamanho permitido por lei. Assim, 88% dos curimbatás-pacu, 70% dos dourados, 76% do surubins e 73% dos pirás eram menores que o mínimo permitido.

  Embora a pesca nas corredeiras de Buritizeiro concentre-se em peixes de tamanho ilegal, seu sistema de turnos e baixo rendimento nos leva a crer que a questão de sua ilegalidade deveria ser revista. A eventual legalização dessa pescaria não poder seguir os modelos tradicionais existentes pois interferiria na sua organização, levando ao aumento do número de pescadores atuando na área.

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Revisado em: 28 Mar 2006 .